sexta-feira, 14 de março de 2014

Os Desabrigados


  • Minha família não tinha uma casa por isso meu pai construiu um lugar para a gente morar, a casa, de madeira, nos protegia da chuva, mas ainda não era um lar. Mesmo ciente, seu João não foi inteligente, comprou concreto e cimento para tentar concertar tudo aquilo, urgente! Mas no fundo ele sabia que aquilo não faria daquela casa um lar. Piso bonito, parede fina, tudo pintado e bordado, mas mesmo assim o nosso lar parecia sempre bagunçado. Procurei minha mãe, pedi que ela me ajudasse a arrumar aquela bagunça antes que tudo aumentasse. Mesmo ciente, ou talvez até inconsciente, dona Maria também não foi inteligente, pois comprou uma vassoura e um esfregão para arrumar tudo aquilo, urgente! E por mais que ela tentasse, fingisse ou falasse, no fim do dia, ela sempre sabia que a sua vassoura nunca faria a limpeza a qual seu filho pedia. Procurei minha irmã que chegava do trabalho quase sete e meia, pedi para ela me ajudar, pois a situação estava feia. Pouco ciente meio confusa em sua mente, Mariazinha também não foi inteligente, comprou roupas e maquiagem pra deixar a coisa mais bonita, urgente! No fundo ela sabia, só não admitia, que não era aquilo que nossa família queria, a beleza não se encontrava face ou maquiagem nem sequer na mesa. Procurei meu irmão, buscando uma solução, pedi a ele que me ajudasse a encontrar uma saída para resolver o para os problemas da vida. Nada ciente, o coração adolescente não foi muito inteligente, entrou em sua maquina começou a navegar, tão perto, mas tão longe, que nem conseguia me escutar, em seu navio imundo e solitário colocando fotos e frases em garrafas e jogando-as ao mar, aos olhos dos tolos sua madeira parece saudável, mas na verdade ela está toda ‘instagrada’, é isso mesmo ‘instagraram’ a família brasileira, ‘intagraram-se’ os padrões de beleza, estão ‘instagrando’ até comida ultimamente, ‘instagrou-se’ o mundo real,’instagrou-se’ o natural jovens perdidos em um oceano sujo e vazio mas não consegue mais parar. Sabe de uma coisa? Me bateu uma vontade de ir pra casa, mesmo já estando em casa, aqui é o lugar onde eu moro, mas não é onde vivo, aqui é o lugar onde eu como, mas não onde me alimento, aqui é onde durmo, mas não descanso, aqui é o lugar onde o silêncio ecoa pelas paredes e as más lembranças nos perseguem. Físicos, cientistas! Me respondam essas perguntas: Como é possível que em uma casa tão pequena possam caber cinco mundos tão diferentes? Como é possível sentir a companhia da solidão? Como é possível que eu esteja aqui em claro, se a noite está tão escura? Como é possível que o barulho desse silêncio esteja me incomodando tanto? Me digam? Quantos paradoxos para uma pessoa só entender, já perdi até a noção do tempo... Um dia a menos ou um dia a mais? Já nem sei tanto faz, todos os dias são sempre iguais. Ei, você ai! me escuta! Sou seu filho, não sou seu cliente, ouça bem: não tem graça receber um presente de alguém que nunca está presente. O substantivo presença da origem ao verbo presenciar e não presentear, não adianta presentear para não presenciar. Filho cuidado, use sua inteligência, qual cidadão compra um tênis que custa o preço de uma tv, estando em sã consciência? Olá meu ‘carro’ amigo! Ops, quer dizer amigo ‘caro’! Ops quer dizer amigo ‘carro’... Ah meu Deus estou confuso! Meu pai sempre me diz que na época dele se cultivavam amizades baseadas nos valores, mas que hoje em dia elas se baseiam em preços. A nossa sociedade nem mesmo se lembra da diferença entre preços e valores. Quer saber? Para ser um amigo de verdade você ‘tennis’ que ter respeito e ‘tennis’ que ser sincero, e muitas pessoas hoje em dia, não tennis cabeça para entender o que realmente importa. Ainda bem que a família brasileira é um família de valores, muito amor e ‘carrinho’, quer dizer ‘carrinho’ e amor, quer dizer amor ‘carro’, ah que droga! Estamos confundindo as coisas! Que nível de insanidade chegou a nossa sociedade, se a moda agora é ostentar eu também vou fazer isso, mas só que de um jeito um pouco diferente, enquanto alguns ostentam coisas inúteis, eu vou ostentando essa mãe maravilhosa que eu tenho. - Olhem e morram de ‘recalque’, olha o meu pai como é trabalhador... ‘Os invejoso’ pira. Ostentar vem do grego e significa demonstração inútil, considerada, na antiguidade, uma tarefa humilhante para um ser racional, por isso foram inventadas as estátuas, os manequins, sem cérebro, sem valor, sendo assim, a única coisa que os tornam importantes é um objeto que cobre toda irracionalidade der um ser sem valores dentro si mesmo. Não carrego aqui comigo a verdade, posso até estar errado, mas deixo a minha sinceridade. Pai, mãe, filho, filha! É isso que eu quero que você saiba que mesmo sendo sincero você também pode estar errado, pois sinceridade não condiz com a verdade. Principalmente quando você grita, fala tudo que pensa, porque está irritado, você aproveita esse momento para ser sincero, mas pode estar sinceramente enganado.




   Os Desabrigados - Texto cedido por meu amigo pessoal, Junior Carvalho Pereira.

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